Fazer trilhas não se resume apenas ao ato de de caminhar por um dia ou mais na natureza, com ou sem um mochilão nas costas, para cumes de montanhas ou para cachoeiras.
Na medida em que nos apaixonamos por esta atividade e estamos sempre em busca de novos destinos para trilhar, da cidade vizinha, litoral vizinho, de repente você está do outro lado do Brasil ou em outro país!


Até me vêm a cabeça o questionamento de algumas pessoas: “Mas você foi até lá só para fazer essa trilha?”, referindo-se a minha viagem ao Peru, e eu com toda naturalidade respondo “Sim!”, mas no fundo, não deveria ser essa a resposta, nós planejamos desde pequenas viagens á cidades vizinhas até grandes para outros países, com o pensamento em certo trekking famoso, mas desde o momento em que começamos a pesquisar de fato o local, pegamos a estrada ou paramos em aeroportos e ao chegar na cidade de destino, ter contato com sua comida, falar com seu povo, conhecer nossos guias locais e os nativos da região acabamos indo lá para fazer muito mais do que “essa trilha”!


Para citar algumas experiências vou falar dos trekkings em que acredito ter enriquecido culturalmente e como pessoa, expandindo meus conceitos, me tornando mais simples e mais feliz, é inevitável:


Vale do Pati / BA – Desacelerar e Gastronomia
Fiz essa travessia duas vezes, uma em 2014 e outra em 2016. Na primeira vez fui no modo acampamento e cozinhar todas as refeições, o que aprendi com isso? Felizmente eu estava com dois baianos, deixei de ser paulista por 4 dias, aprendi a ser paciente e comer batata doce cozida no café da manhã, isso me fez desacelerar totalmente, acostumada a acordar agilmente desmontar acampamento e sair, eles me trouxeram a paz da bahia, de com calma ferver por meia hora uma batata conversando arrastado com todos e comendo cuzcuz ou bebendo chá com leite!


Na segunda vez que eu fiz essa travessia foi dormindo nas casas do caminho e com as refeições inclusas, feitas pelos moradores, tive muito mais contato com a forma que vivem essas pessoas dentro da floresta do vale do pati, pude comer banana frita, bolo de tapioca e tantas outras comidas feitas na hora e com carinho pelos donos de cada casa, experimentando literalmente sua cultura gastronômica.
Extra: Ambas as vezes eu comi pastel de jaca no vale do capão, uma riqueza gastronômica de lá! Então se for não deixe de experimentar!

Travessia da Joatinga / RJ – Simplicidade caiçara!
Fiz a travessia da Joatinga três vezes, na primeira vez levei comida para alguns dias, mas o dia em que comi o peixe da Senhora que mora em cairuçu das pedras, pensei que valia cada centavinho do meu dinheiro e foi barato ainda (rs), é eu acho que experiências gastronômicas ganham meu coração, mas depois nas demais visitas, parei para observar sobre isso, sobre como a pesca ali sempre foi sua principal atividade, agora complementada com o turismo, mas que ainda fazem com excelência e muito respeito ao mar.


Além de comer peixe de ótima qualidade, nessa travessia é possível observar e vivenciar como se vive bem mesmo com muita simplicidade, algumas casas de pau a pique pelo caminho, onde passamos o início da noite conversando com seus moradores por horas.
E por fim esteja o tempo bom ou ruim na hora de atravessar o mar, os barqueiros são muito habilidosos, como homens do mar que realmente são, cortam as ondas sabendo o que fazem e por mais adrenalina que eu sinta, sei que estou segura, é um saber que passa de pai para filho.

Peru – Idioma!
Em agosto de 2018 tive a felicidade de pela primeira vez sair do Brasil, antes eu tinha certa relutância com essa idéia pensando que o Brasil é muito grande e eu deveria valorizá-lo e conhecer primeiro tudo por aqui, mas, pensei bem e quis expandir um pouco meus horizontes principalmente de idiomas e acabei indo para o Peru.
Primeiro fiz questão de escolher algo que não tivesse nada haver com Machu picchu, gosto de sair do comum, então escolhi o trekking Huayhuash de 8 dias pela cordilheira de mesmo nome, para tanto teria de aclimatar na cidade de Huaraz em suas lagunas e foi o que fiz, no inicio eu não sabia falar nem Bom dia, apenas sorrir e acenar! (rs) Depois de observar bastante e partindo ao trekking, com 4 franceses, 1 tcheca e o guia nativo peruano logo nas primeiras 4 horas de viagem já começamos a nos comunicar, era inglês, misturado com espanhol, combinamos então de tentar falar só espanhol e em resumo, foram 8 dias de aula de novas palavras em espanhol e conseqüentemente em francês, pois havia uma francesa, a Charlotte muito curiosa e isso foi ótimo, sai de lá até que falando bem o espanhol, saudades do Peru e dos novos amigos, Muchas gracias amigos!

Venezuela – Resilência e compartilhar!
Em outubro de 2018 fui para a Venezuela, para realizar um sonho, subir o Monte Roraima! E foi com a Mantra! Como gratidão ao que me acontecia, de realizar esse sonho, de ter em meu ano 2 viagens internacionais, senti que deveria ajudá-los e resolvi levar doações, com a ajuda de outras integrantes do grupo conseguimos levar bastante itens de higiene pessoal, remédios e outros itens, entregamos em 2 locais diferentes, para famílias indígenas da região, uma delas bem onde iniciaríamos nosso trekking em Paratepuy. Isso já foi emocionante para mim, muitos amigos, colegas e conhecidos doaram confiando em mim e pude cumprir a tarefa de levar até eles. Senti que fazia uma troca de carinho com eles e que foi como pedir licença com respeito para adentrar aquele paraíso, sua casa, seu quintal.
Ao partir para a trilha, toda estruturada com carregadores da Mantra, que levavam comida para 8 dias e barracas, senti imediatamente agradecida, não é frequente utilizar carregadores, mas sabíamos que era importante nessa expedição, o que para nós não era muito e aliviaria muito peso, os ajudaria. Eram mochilas pesadas, mas faziam sorrindo e com amor, o mesmo ocorria na hora de cozinhar para nós e de nos guiar, em todos os momentos, eram amáveis e com um sorriso que nunca sumia do rosto, quis conversar com todos saber sua história e como andava o país, não era fácil para nenhum deles, mas aquele trabalho os ajudaria muito e creio que por isso sorriam tanto, aprendi a graça de sorrir mesmo nos momentos difíceis e ser amável com todos, apresentando toda gentileza de uma cultura para a outra.

Acredito que nem preciso concluir, as viagens vem moldando quem eu sou, são viagens “só para trilhar?”, tenho certeza que não e a cada dia acredito mais que a natureza é a nossa escola sem paredes, a experiência de lidar com pessoas e sua cultura traz inevitavelmente uma expansão de nossos conhecimentos seja gastronômico, sobre idiomas ou sobre costumes, sobre religião, sobre história… é uma infinidade de vivências que só tem a acrescentar. Se posso dar um conselho, escolha uma trilha e viva essa experiência por inteiro, só vai!

Nathachi Silva,
Instagram:
https://www.instagram.com/nathachi_aventureira/
Facebook: https://www.facebook.com/natachiaventureira/

Deixe um comentário